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terça-feira, 5 de julho de 2011

Entrevista de Mariela Castro, diretora do Centro Nacional de Educação Sexual (CENESEX) de Cuba

“Imagino um socialismo democrático, sem dogmas nem preconceitos”


imagemCrédito: Resumen


RESUMEN LATINOAMERICANO
Entrevista de Mariela Castro, diretora do Centro Nacional de Educação Sexual (CENESEX) de Cuba, filha de Raul Castro.
Redação Cafefuerte
ENTREVISTA DE MARIELA CASTRO COM O PROGRAMA “A SÓS” DE ATUALIDADE RT, 2 DE JUNHO DE 2011.
ELENA ROSTOVA: Muito obrigada por ter aceitado a compartilhar experiências mais pessoais conosco. Você é a filha de Raul Castro e sobrinha de Fidel Castro. Na vida cotidiana, isso não te afeta, não te limita?
Mariela Castro: Afeta. Desde um ponto de vista é incomodo, mas desde outro ponto de vista é bonito, porque tenho recebido muita gratificação espiritual, agradecimento, mensagens muito bonitas de agradecimento muito sincero de pessoas não somente em Cuba mas de outros lugares do mundo justamente por isso. Ou seja, me tem dado gratificações espirituais.
ER: Você nasceu pouco depois do triunfo da revolução cubana. Como lembra o ambiente que reinava sua infância?
MC: Eu lembro minha infância muito feliz. Realmente meus pais me deixavam isso de explorar, eu lembro que sempre estava pendurada numa árvore, pendurada em qualquer coisa, subindo colunas... não havia essa limitação de por ser menina não podia fazer coisas de menino, ainda que sempre havia alguém que me dizia: “desce das árvores que isso é coisa de menino”. Mas sinto que havia liberdade, que recebiam com simpatia qualquer questionamento que fazia, sempre houve a possibilidade de dialogar, de buscar o espaço familiar do dialogo, inclusive do questionamento, de eles a nós e nós a eles, da própria sociedade, da história...
Lembro quando comecei na universidade, que comecei a estudar Filosofia Marxista, (que) me deu muitas ferramentas para questionar a realidade, lembro que lia a revista Literatura Soviética que vendiam aqui que era muito boa, e há uma que nunca vou esquecer, eu creio que vou guardá-la toda minha vida, vou conservá-la por toda a minha vida, que era uma dedicada a Maiakovski, e me deu muita idéia do que foi essa época em que viveu Maiakovski, contraditória entre a época de Lênin, a desaparição de Lênin, quando começa Stalin, como mudou a maneira de experimentar o socialismo e ele (Maiakovski) como o sofreu. E então li discursos do Lênin nos quais questionava o “a formação de tendências”, e um grupo que ele considerava que não ajudava ao processo de experimentação do socialismo, porque tergiversava sobre seu sentido, e eu lembro que isso me iluminou, me deu pistas para questionar a realidade cubana, e depois que a estudava, passava para o meu papai. Dizia-lhe: Olha, papai, isto tem que mudar aqui também, porque acontecia lá com Lênin, e está acontecendo conosco.
Tínhamos essa possibilidade de dialogar e de questionar a própria realidade cubana. E questionava o campo socialista também. E ao fim dos anos, me dou conta que tive essa possibilidade, essa liberdade, que falávamos muito abertamente em casa sobre muitas coisas. E realmente isso me deu muita fortaleza e me fez muito feliz de que pudéssemos ter essa possibilidade.
Raul Castro quer tanta liberdade como Mariela
ER: Você mencionou que seus pais tem tratado de protegê-la da política, que sem dúvida não é um mundo simples. Mas, até que ponto isso tem sido possível? De qualquer maneira não é uma responsabilidade que vem com o nome?
MC: Não, não gosto de assumir responsabilidades públicas desde o nome, sem uma responsabilidade mínima como cidadã e uma responsabilidade de afeto familiar, que eu não quero fazer coisas que lastimem meus pais, a minha família, como qualquer outra pessoa com sentimento de pertinência a uma família. Mas não... em algum momento quando eu era mais jovem me propunham, olha para que..., me propunham de delegada para um congresso de uma organização estudantil, e então eu, [me perguntava] bem, e por que eu? Que no fim, a realidade foi dizendo-me que sim, que teria que participar e assumir responsabilidades mas não muito além das que eu assumia em âmbito mais simples...
E cada vez que alguém me propunha um trabalho, minha mãe [Vilma Spín] dizia que não, que me deixassem tranqüila onde eu estava. E meu pai também vejo que tem feito tudo o possível para evitar que quando alguém me propõe para alguma responsabilidade, ele pede por favor que me deixem tranqüila em meu trabalho e nas coisas que faço. Eu interpreto como me protegesse. Eu sou muito apaixonada e eles, sobretudo meu pai que é muito apaixonado, e [vendo] que mundo político é complexo e contraditório, talvez eles preferem que eu não viva essas contradições. Os pais tendem sempre a proteger, ainda que digam que não, tendem a proteger. Talvez deva agradecer-lhes, porque eu identifico minha participação política desde a participação cidadã. Creio que me dá mais liberdade. Inclusive uma vez me disse; meu pai me disse que ele gostava muito da minha liberdade. Que queria ser tão livre como eu. E bom, talvez essa é a mensagem que eu deva captar.
ER: Uma vez em uma entrevista com Ricardo Alarcón, ele nos falava de um forte campanha de descrédito contra Cuba. Você, sendo parte da família Castro, alguma vez se sentiu vítima dessa política?
MC: Sim. Acredito que todas e todos os cubanos temos sido vítimas... Ou seja, todos os cubanos identificados com o processo revolucionário, temos sido vítimas disso. Ainda que eu tenha que agradecer que a grande maioria dos jornalistas com os quais tenho tido vínculo tem sido muito gentis comigo, ainda que, bem, quando chegam as notícias às editoras ou meios de comunicação as coisas possam mudar. Mas sim, tenho percebido na grande maioria dos jornalistas com os quais tenho dialogado, honestidade.
Mais líder que tio
ER: As grandes figuras da história muitas vezes tem que sacrificar o familiar por sua obrigação ante o povo, ante sua missão. Em seu caso, até que ponto poderia dizer-se que Raul político não deixou espaço para Raul pai?
MC: Não, não poderia dizer. Porque tanto meu pai como minha mãe fizeram um grande esforço para dedicar tempo a família. Sobre todas as possibilidades, às vezes mesclavam reuniões de trabalho com presença familiar, se tinham que fazer algum almoço ou um jantar de trabalho pediam estar com os filhos, ou seja, eles sentiam muita falta disso e por isso davam muita importância ao tempo que estávamos juntos. E também por isso agradeço. Às vezes eu reclamava que queria ter uma mãe e um pai comuns e normais, e queria que estivessem na escola todos os dias como outros pais e outras mães, que nos levassem... Minha mãe teve mais tempo que meu pai para ir às reuniões de pais, de estar mais vinculada a nossas vidas cotidianas, mas ela também tinha muito trabalho. E ainda assim, buscava tempo.
ER: Quando falamos de Fidel Castro, o mundo inteiro imagina esse herói, essa figura legendária que ousou fazer frente contra o império norte-americano. Para você, é somente tio Fidel, ou segue vendo a ele como uma figura?
MC: Não. Quando eu era menina, sim era tio Fidel, mas a medida em que, já depois da adolescência e da juventude, fui me dando conta com mais clareza de quem era Fidel, no sentido histórico e para o povo de Cuba, já comecei a vê-lo como Fidel, como todo mundo.
ER: E surgiu certa distância?
MC: Sim, surgiu uma distância com respeito e, além disso, me dignificava ver Fidel como líder e não como tio. Sentia que era mais digno. È como crescer e dar-se conta: essa pessoa não é teu tio, essa pessoa tem uma responsabilidade social que te coloca em uma relação diferente diante dele.
ER: O que você poderia nos contar dele como ser humano, como pessoa no cotidiano?
MC: No cotidiano, eu gostava muito desde criança, bem, a aparição de Fidel na família, de repente diziam Fidel vai chegar, então, chegou Fidel, era sempre um acontecimento, uma grande emoção, e em parte muito prazeroso. Ou seja, passávamos bem na companhia de escutá-lo. Realmente sempre tínhamos desejo de escutá-lo, de fazer-lhe muitas perguntas; sempre que alguém vê a Fidel tem vontade de perguntar-lhe muitas coisas, porque Fidel tem resposta para tudo, e além disso respostas engenhosas, respostas inteligentes. Então, desde as perguntas mais banais até as perguntas mais complexas, dão desejo de perguntar-lhe. E ele sempre tem resposta pra todo tipo de pergunta. Sempre me deu muita satisfação ter a oportunidade de compartilhar momentos em que contava questões de história, coisas que haviam vivido, análises da realidade que se estava vivendo.
Mas sobretudo, mais no ambiente privado, era muito divertido quando se reuniam ele, meu pai, Ramon, o irmão maior, e contavam coisas deles da infância, ao longo de sua vida, durante a guerra de guerrilhas, e era simpático escutar coisas que nunca haviam sido ditas entre eles, e que nesse momento se diziam: “E naquele momento me chamou a atenção e não gostei daquilo, porque eu não tive culpa.” E isso era muito simpático, riam-se muito fazendo relembrando coisas, inclusive de momentos difíceis também.
ER: E do que contavam, alguma recordação da época da Revolução lhe impressionou em particular?
MC: Muitas. Foram muitos acontecimentos, porque eram muitas coisas e eu observava muito, porque havia muitas coisas que falavam em sussurros, em segredo, e eu sempre tratando de entender o que acontecia por ali, às vezes tratava de perguntar e às vezes não, para que não me excluíssem. Queria entender seus pontos de vista sobre as coisas que aconteciam em Cuba e no mundo. Uma [coisa] que me impactou muito foi Angola, a Guerra de Angola, Cuito Canavale, que foi um momento fundamental na Guerra de Angola para levar à vitória final. Foi um acontecimento militar muito especial, no que se refere ao estudo de táticas militares (para as pessoas que se dedicam a isso).
E eu lembro esse momento em que os cubanos estavam no sul de Angola, cercados pelas forças sul-africanas e, no meio do cerco, de madrugada, construíram um aeroporto para que aterrissassem as tropas que fortaleceram as posições angolanas e cubanas nesse confronto, eu lembro que foi um momento muito tenso, de muito sofrimento, de muito silêncio. E eu era jovem, e não entendia o que acontecia, e eu pensava que havia algum problema comigo. E eu chegava e dizia: “Por que não falam? O que está acontecendo, mal educados? Que problema vocês tem?” E eu saía, toda ofendida, e não sabia tudo o que estava acontecendo, até que um dia chego em casa e havia uma festa, todo mundo celebrando, contentes, estava Fidel e um monte de companheiros do Exército, e ali me interei o que havia acontecido. Olha, disse a mim mesma, não sabia que a coisa era tão grave, e eu pensava que havia feito algo mal. E assim muitas coisas aconteciam de todo ponto de vista, e então não se podia falar, e eles se reuniam e falavam em segredo, e eu louca pra saber o que estava acontecendo. Com o tempo entendi que era melhor não saber o que não te correspondia e não perguntar o que não me correspondia.
ER: Você que viveu de dentro, durante esses momentos duros, sentia-se temor, uma atmosfera de dúvidas, de medo por algum momento?
MC: Sim. Tanto desde que começou a situação que nos levou ao período especial com a queda do campo socialista, que foi vivido com muito sofrimento por todos os cubanos, e essa incerteza que já se estava esperando e quando surpreendeu-nos a todos – Fidel dizia, se apagou o sol em um segundo quando caiu a União Soviética. Esse foi um momento muito duro e tudo o que veio depois foi mais duro, com o sofrimento do que se ia perdendo, todos os avanços sociais que se iam perdendo. Isso se viveu com muito sofrimento a nível familiar.
A Guerra de Angola e nossos mortos em Angola viveu-se com muito sofrimento também; Elián, quando seqüestraram a Elián González; lembro também quando seqüestravam pescadores, que se via meu pai muito dolorido, muito angustiado, cada vez que havia um ato terrorista; o crime de Barbados sofreu-se muito na [minha] família, e em toda a família cubana, ainda sofremos a lembrança do crime de Barbados, [sobre ele] ainda não se fez justiça.
Os poucos avanços que se alcançavam vivia-se com muita felicidade, com muita história. Mas, lembro-me de 1994, quando houve um dos tantos intentos de manipular a nível de política internacional os meios norte-americanos para intervir em Cuba, quando aquela crise dos balseros. Lembro-me que eu fui a Santiago de Cuba com meu pai, que foi para controlar a situação na base Naval de Guantanamo, o que poderia passar, e vi que havia real possibilidade de [uma] invasão norte-americana. Vivi com muita angustia, [mas] Fidel o manejou a nível diplomático de maneira genial.
Diria que Fidel sempre fazia como excelentes jogadas de xadrez, diria eu – todos estávamos atentos à jogada que faria -, e ao final sempre fazia jogadas espetaculares que salvavam a soberania do país.
Outro acontecimento muito triste que está sendo vivido por minha família, por toda a imensa maioria das famílias cubanas, é a situação dos nossos cinco heróis presos ilegalmente, arbitrariamente, nos Estados Unidos por proteger o povo cubano dos atentados terroristas que são organizados desde os Estados Unidos com financiamento do governo norte-americano. Isso estamos vivendo com muita impotência, com muita raiva, e tenho que dizer a palavra raiva porque ante a arbitrariedade, ante a injustiça, o ser humano sente-se mal. Seus direitos humanos são violados em todos os sentidos nesse processo, e nós o interpretamos – ao menos eu interpreto – como uma vendetta do sistema mafioso de poder norte-americano, como um pretexto, um coringa: a jogada que eles tem para tratar de manipular as respostas de Cuba na política e na relação com os Estados Unidos.
Mas até agora não puderam fazer-nos curvar, não puderam lograr que violemos nossos princípios mais importantes e realmente não sei qual será sua próxima jogada. Porque realmente são tão estúpidos que nem sequer querem trocar nossos prisioneiros pelo prisioneiro norte-americano que está aqui [Alan Gross], que já foi condenado em um julgamento legal e com todos os recursos relacionados aos direitos do prisioneiro. Então, estamos vivendo isso com muita indignação e não vamos parar de lutar para que se faça justiça.
Eu gostava do Che
ER: Junto com sua família, você teve a oportunidade de ver grandes figuras do século XX, entre outros Che Guevara visitava sua casa. Como os olhos de uma menina viam-no? Que lembranças tem de Che?
MC: Causavam-me muita simpatia todos os amigos de meu pai. Todos pareciam-me preciosos, atrativos, desde muito pequena eu era muito comunicativa e queria estar perto [deles] para escutá-los falar. E eu tenho uma lembrança muito clara de Che. Uma vez estavam fazendo um churrasco, estavam todos reunidos ao redor da carne, conversando, ainda vestidos de verde-oliva, e a lembrança que eu tenho do Che é que eu gostava muito dele, e eu queria sempre chegar nele cuidadosamente para que meu pai não brigasse comigo por estar incomodando enquanto eles estavam ali conversando. E eu chegava feliz, iluminada onde estava o Che, porque lembro que era muito terno. Um homem muito terno que sabia tratar as crianças. E para as crianças isso é importante, as pessoas que sabem tratar. E eu tenho assim uma lembrança muito especial, fascinada de como era ele, de quem era ele, e todo o demais foi alimentando-se com as imagens posteriores, claro.
Mas quando eu contava essa cena a minha mãe, ela se surpreendia e me dizia: Como podes lembrar, se tinhas dois anos? Mas era assim mesmo, eu lhe descrevia toda a situação, que meu pai brigou comigo e então... “sim, foi assim mesmo, como é que podes te lembrar?”, me dizia. Bem, as coisas especiais não se esquecem. Che era uma pessoa impactante.
ER: De outros que conhecesses, que lhe impressionaram, quem poderias mencionar?
MC: A Giap. O General Giap, vietnamita. Era um homem inteligentíssimo, um ser humano fascinante, e sentia uma grande admiração por ele. General vietnamita que era Ministro da Defesa, que ganhou a guerra do [contra] Japão, França, e derrotou os norte-americanos no Vietnam. E era de uma humildade, que era o que mais gostava nele, a humildade, esse espírito oriental humilde... Precioso. A esse homem, esse senhor, eu tinha muita admiração, já morreu. Mas há muito mais pessoas que agora não me lembro... Bem, [Gabriel] Garcia Marquez, um grande amigo da família, o escritor Garcia Marquez. Recordo a Angela Davis, que eu sentia muita admiração por ela; minha mãe a atendia pela organização de mulheres; todas essas mulheres vietnamitas... e Valentina Tereshkova, agradava-me muito, era muito simpática. Era uma amiga da família, não somente uma figura histórica. Muitas pessoas muito especiais.
ER: E como nota com o tempo, tanto seu pai como seu tio, como foram mudando?
MC: Olha, desde criança até ficar mais velha, eu vejo um trecho muito grande em como era meu pai quando eu era criança, como era Fidel, e no que foram mudando – em Fidel me dou conta por seus discursos, como foram mudando em muitos temas, e em meu pai em sua atitude pessoal ante muitas coisas. Foram mudando inclusive sua maneira de dirigir, em temáticas, por exemplo, nos temas do machismo como foram evoluindo, na visão sobre a pessoa homossexual como foram evoluindo, ainda que minha mãe o influenciou muito nas mudanças que foi aceitando em sua vida. Mas em geral sim, em maior maturidade e maior clareza.
ER: Você diria que em algum aspecto perderam esse romantismo, essa força que tinham, que se desiludiram?
MC: Não, claro que viveram coisas difíceis, viveram muitas desilusões, mas também viveram muitas gratificações quanto ao que é estar cada vez mais convencidos do projeto social. Ou seja, ainda quando têm um sentido prático da realidade para buscar soluções que devem levar um pensamento frio, nunca perderam essa ternura, o romantismo não se perdeu. E eu gosto disso: eu creio que o romantismo não se pode perder nunca.
ER: Houve diferentes rumores sobre o estado de saúde de Fidel. Há alguns meses Hugo Chavez esteve em nosso programa, nos contou que [Fidel] passa o tempo estudando e ensinando. O que você pode nos dizer?
MC: Bem, eu pessoalmente não o tenho visto, porque as visitas que se fazem são muito reduzidas. Mas sei por meu pai e sei pelo que escreve, que leio como todos os cubanos, podemos perceber que Fidel tem uma capacidade de recuperação impressionante. E tudo isso não está em sua genética, que como se vê tem uma forte genética familiar, [mas] acredito que tudo isso está em sua cabeça. Fidel sempre teve a capacidade de surpreender-nos. Ninguém sabe qual será a resposta, ninguém sabe qual será sua saída, mas uma das coisas que mais nos fascina em Fidel é essa sua capacidade de surpreender.
ER: Em que conceitos implementados já na Revolução você se coloca como representante de outra geração?
MC: Eu sinto que o estudo da história de Cuba, o recurso da filosofia marxista, para mim tem sido uma ferramenta para interpretar a realidade junto a outras ferramentas teóricas e metodológicas, de outras ciências, não somente filosóficas, que te aportam recursos para interpretar para ver o caminho que deves seguir para continuar transformando a realidade. E esse espírito transformador da realidade que colocava Marx é uma das coisas que mais gosto em minha vida. Essa vocação de transformar buscando cada vez mais justiça entre os seres humanos me encanta e eu creio que aí está também marcado o caminho da minha vida, pessoal, profissional e é o que estou tratando de fazer.
Ou seja, eu sim creio nas possibilidades do socialismo, creio que o socialismo teve inícios fascinantes com a experiência leninista, depois teve experiências que não foram tão boas, umas sim, outras não, mas nos ensinaram. A história de Cuba sempre nos deu outras pistas e isso foi o que permitiu que o povo cubano em seu processo de transformação esteja agora propondo que socialismo quer, de que maneira quer experimentar o socialismo como é cenário de justiça, de solidariedade, de equidade.
Socialismo sem dogmas nem preconceitos
ER: Não é que se esteja negando o afirmado no passado, mas seguir adiante...
MC: Não, eu acredito que o que se tem feito é a revisão crítica e com a experiência vivida do passado, e tomar do passado tudo valioso que sirva para seguir avançando. Há alguns professores cubanos que colocam que não foram erros o que consideramos que devemos descartar. Acredito que se deram experiências que nos deram a pista do que funciona e não funciona, e como devemos fazer essas mesmas coisas.
ER: Até que ponto as novas gerações estão em condições de assumir o legado de uma geração tão forte de seu pai e seu tio, com esse romantismo, essa força de espírito?
MC: Eu acredito que sim, à medida em que sigam facilitando os mecanismos de participação popular, onde as novas gerações participem em assumir responsabilidades conscientemente, não formalmente, ou seja, que se cultive a população com esse conhecimento histórico, com essas experiências que nos estão dando a pista de como projetar o futuro. Na medida em que as jovens gerações participem desse processo de aprendizagem e questionamento...
ER: Estão participando?
MC: Sim, sim. Você se dá conta que na sociedade cubana há uma parte das gerações que participa e outra parte que não participa; uma parte que é mais consciente, que tem mais cultura e que portanto tem mais capacidade de participar, e outra parte que é mais inconsciente, que é mais ignorante. Essa é a debilidade, essa parte ignorante. Ás vezes o que dizemos é: Vamos criar o cenário para que se apropriem do conhecimento histórico que lhes permita dizer “isso é meu, porque eu tenho que entrar nesse projeto, porque eu tenho que tratar de mudar as coisas, que coisa é o que eu quero mudar...” O importante é que a gente participe de maneira consciente, que é a maneira de participar livremente, e sem manipulação de nenhum tipo, nem de nós mesmos nem de nossos inimigos, mas oferecendo conhecimentos e informação que permita tirar conclusões lógicas de acordo com a lógica histórica. Se lhes facilitamos isso, cada vez será maior a quantidade de pessoas que possam participar e aportar a nosso futuro.
ER: Digamos que você vê o futuro com otimismo...
MC: Me encanta o que imagino…
ER: Como você imagina Cuba?
MC: Um socialismo democrático, dialético, participativo, no qual predomine o pensamento dialético sem dogmas e sem preconceitos, e isso é o que te dá fortaleza como cultura, como nação; o que te dá fortaleza como nação soberana que está definindo seu próprio projeto. A unidade da nação cubana nessa busca criativa de sociedade é o que imagino como a sociedade que eu gostaria de viver aqui em Cuba.
ER: Muito obrigada por compartilhar conosco estas lembranças e pensamentos, que são inestimáveis.


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

ASPECTOS ATUAIS DA EDUCAÇÃO EM CUBA

Fonte: MUNDO DA EDUCAÇÃO

Principais linhas de ação no decênio

Questões de interesse

O Governo da República de Cuba concede a maior importância à plena realização do direito à educação de seus cidadãos.

Desde seus primeiros dias, incorporou como uma das primeiras prioridades no desenvolvimento de políticas e programas, a superação dos obstáculos estruturais e institucionais ao pleno desfrute deste direito no país. Uma das primeiras medidas revolucionárias foi a erradicação do analfabetismo e a criação das condições para garantir a educação universal e gratuita em todos os níveis de ensino, o qual hoje é uma realidade.

Princípios Básicos

O Estado Cubano, com a participação e respaldo das organizações sociais e não governamentais é o encarregado da estruturação e funcionamento de um sistema nacional de educação orientado ao desenvolvimento e formação das novas gerações num processo docente educativo integral, sistemático, participativo e em constante desenvolvimento, que se apóia num conjunto de princípios, que formam um sistema intimamente relacionado e entre os que se podem assinalar os seguintes:

a) O princípio do caráter em massa e com equidade da educação

A educação, como um direito e dever de todos, é uma realidade em Cuba. Isso significa as possibilidades reais de educação sem distinção de idades, sexo, raça e religioso ou lugar de residência.

Pressupõe o dever de preparar a todos para a vida num sentido amplo.

Atingiu-se com equidade e qualidade, o objetivo da universalização do ensino, inicialmente da escola primária e posteriormente da secundária básica, correspondente ao nível médio, bem como o estabelecimento de um sistema que abarca todos os tipos e níveis de educação para os meninos, jovens e adultos, incluindo àqueles com limitações físicas ou mentais.

b) O princípio de estudo e trabalho

No sistema educacional cubano a combinação do estudo com o trabalho - variante fundamental de o princípio de vincular a teoria com a prática, a escola com a vida e o ensino com a produção -, tem profundas raízes nas concepções de nosso Herói Nacional, José Martí, sobre a educação, quem resumiu o mais progressista do ideário pedagógico cubano.

Martí, como seus predecessores, não só defende o ensino científico, senão proclama a necessidade para nossa América, a América Latina, de um ensino científico que se sustente - como ponto de partida- na problemática econômica de países como os nossos, cujas riquezas e recursos são eminentemente agrícolas.

A aplicação do princípio nos diferentes níveis educacionais acopla dois objetivos fundamentais para a educação, um formativo e o outro econômico.

O objetivo formativo procura desenvolver uma consciência de produtor de bens sociais; ir criando as condições para eliminar os preconceitos que se derivam da divisão entre o trabalho intelectual e o manual; eliminar o intelectualismo no ensino e fomentar o interesse pelo mundo circundante.

O objetivo econômico se propõe integrar à produção e ao trabalho social a capacidade de centenas de milhares de escolares que, mediante uma adaptação adequadamente do tempo de estudo regular e a participação na produção e nas atividades culturais, estéticas, desportivas e recreativas, aporte de maneira concreta a sua própria subsistência alimentaria, e à produção de bens materiais para a sociedade.

c) O princípio da participação democrática de toda a sociedade nas tarefas da educação do povo.

Este princípio, que reconhece à sociedade como uma grande escola, manifesta o caráter democrático e popular da educação cubana, que não só se estende às diferentes zonas e regiões do país e a todas as capas da população, senão também no fato transcendente de que o povo participa na realização e controle da educação e na garantia de seu desenvolvimento com êxitos.

A ação e apoio de todas as organizações e instituições sociais e não governamentais na labor educativa, é uma condição básica para garantir os níveis atingidos e elevar a qualidade da educação nas condições de período especial em tempos de paz, que enfrenta nosso povo nestes instantes.

Isto se manifesta particularmente no desenho cada vez mais amplo das estratégias educativas, de seu controle e na tomada de decisões, que atinge todos os níveis da sociedade, começando com a família, e dos órgãos do Poder Popular, até a Assembléia Nacional (Parlamento).

d) O princípio da educação e da escola aberta à diversidade.

Se reafirma a aplicação da prática da educação em todos os tipos e níveis do Sistema Nacional de Educação, com o qual se garante à mulher e ao homem o acesso aos centros de formação em quaisquer das especialidades e profissões que oferece dito Sistema.

Nele se reflete a vontade do rendimento, permanência e trabalho pela graduação com sucesso para todos, sem nenhum condicionamento por razão de sexo, raça, religião, grupo social ou capacidade.

O enfoque de gênero na Educação cubana.

O acesso das meninas e as mulheres à educação se considera em Cuba um direito elementar conquistado desde faz quatro décadas, mas ademais se constatou em diversas investigações do que o nível escolar da mãe atua como uma variável diretamente associada aos níveis de aprendizagem dos filhos e filhas, sendo esta uma razão importante para que à educação da mulher se lhe preste um atendimento especial.

O enfoque de gênero, inclui-se nos programas curriculares e de forma gradual nos livros de texto, neste caso com maior lentidão devido às dificuldades existentes com os insumos para as novas edições. Apesar dessas limitações, incrementou-se nos programas de superação, capacitação e pós grau.

A Federação de Mulheres Cubanas, onde se promovem diferentes ações, entre elas a investigação e a promoção nas escolas do enfoque de gênero, desde o desenho de uma educação não-sexista que chegue até o modo de vida da escola e o sistema de atividades e relações que paulatinamente contribuem a socializar e conformar a subjetividade dos e as estudantes.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Educadores cubanos contribuem na alfabetização de trabalhadores rurais no Brasil

Por Joana Tavares da Página do MST
http://convencao2009.blogspot.com/2010/12/educadores-cubanos-contribuem-na.html

Ontem,dia 22 de dezembro, Cuba comemora o Dia do Educador. A data tem sentido especial para a ilha, que em 1961 celebrava a erradicação do analfabetismo.
A campanha para que todas as pessoas possam adquirir o direito de ler e escrever percorreu o mundo. O método cubano denominado “Sim, eu posso” está em execução em mais de 29 países e já transformou quatro deles em territórios livres do analfabetismo: Venezuela, Bolívia, Nicarágua e Equador.
Os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD) apontam que o Brasil ainda possui 14 milhões de analfabetos. Para contribuir com a superação dessa realidade, 13 educadores cubanos passaram o ano de 2010 trabalhando junto com educadores brasileiros na alfabetização de adultos em sete estados: Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará, Pará, Alagoas, Alagoas, Rio de Janeiro e Bahia.
“O Brasil era um desafio mais complicado, por sua dimensão continental. O número total não é o que desejamos, nem o MST nem nós cubanos, mas é o que foi possível dentro das possibilidades, com a dificuldade de acordos com governos. São milhões de pessoas que ainda precisam se alfabetizar e não podemos nos esquecer disso”, aponta o embaixador de Cuba no Brasil, Carlos Zamora.(Leia a entrevista abaixo).


Em parceria com o MST e com alguns municípios, 2.904 trabalhadores e trabalhadoras rurais se graduaram com o método “Sim, eu posso”, que utiliza vídeos para auxiliar o processo de aprendizado. Outros 3.248 continuam estudando, nas 295 turmas em andamento nos assentamentos e acampamentos.
“Para mim foi uma coisa muito grande, porque conheci de perto o modo de vida do povo brasileiro, sua hospitalidade. A forma como me receberam, em cada acampamento, sempre foi muito alegre. As merendas, as comidas, eram feitas junto com a comunidade”, conta Felipe Granja, que trabalhou no estado do Rio Grande do Norte.
João Paulo Rodrigues, da Coordenação Nacional do MST, reforça o compromisso do Movimento de erradicar o analfabetismo em suas áreas e agradece ao povo cubano por mais esse exemplo de solidariedade. “Na construção histórica do MST, Cuba sempre foi uma referência, tanto na questão da formação político-ideológica como na organização do trabalho. Cuba nos deu a oportunidade de formar 53 médicos e temos outros 98 estudando. Vocês deixam aqui o exemplo: o maior triunfo para o próximo período. Vocês retornam como militantes do MST, com todo nosso carinho”.


"Não é possível pensar em liberdade sem conhecimento"


Educadores cubanos percorreram sete estados brasileiros para difundir o método “Sim, eu posso”, que contribuiu para erradicar o analfabetismo em quatro países latino-americanos. Neste ano, 2.904 trabalhadores e trabalhadoras rurais aprenderam a ler e escrever com o método. Em parceria com o MST, outras 295 turmas estão em andamento.
A ilha comemora neste 22 de dezembro o Dia do Educador, para celebrar a vitória de ter toda sua população alfabetizada em 1961. Em entrevista para a Página do MST, Carlos Zamora, embaixador de Cuba no Brasil, declara que o país fará o que estiver a seu alcance para contribuir com a erradicação do analfabetismo.



Como você avalia a importância da parceira do povo cubano com o povo brasileiro no “Sim, eu posso” aqui no Brasil em 2010?
Carlos Zamora - Creio que é uma iniciativa muito importante, e que nos emociona, como o MST, com sua luta social com a reivindicação e solução dos problemas dos sem terra no Brasil e da Reforma Agrária e distintas bandeiras, é capaz de preocupar-se e ocupar-se para que não somente sua militância, simpatizantes e base possam aprender a ler a escrever - algo de suma importância para a dignidade da pessoa - como também desenvolve iniciativas que atendem ao conjunto do povo brasileiro. No tempo em que se desenvolveu o programa do “Sim, eu posso”, da parte do MST, muitos brasileiros aprenderam a ler e a escrever.
Não é possível pensar na liberdade, nem nos direitos humanos, nem no desenvolvimento, nem em seguir adiante, sem estar embasado na aquisição do conhecimento, em aprender a ler e escrever, de aprender a conhecer as distintas experiências, sem adquirir uma profissão, sem adquirir conhecimentos que permitam avançar. José Martí dizia que precisamos ser cultos para ser livres. E precisamente isso só é possível com o conhecimento.
Diminuir a quantidade de pessoas que são analfabetas é uma contribuição ao futuro do Brasil, uma contribuição verdadeira. Não somente ao futuro do seu povo e de sua gente, mas garantir a possibilidade da liberdade e da independência. Isso é uma coisa que nós avaliamos muito positivamente.
E onde quer que seja no mundo, em qualquer parte, onde haja uma causa humana e justa de defender, o povo cubano estará disposto a dar nossa cooperação. E neste caso, ao povo brasileiro, que é um povo irmão, um povo querido, nossa gente, um povo que nossa gente ama, poder contribuir nesse tipo de trabalho, é uma honra, um orgulho, algo que nos motiva.


Há algum indicativo de novos projetos, de novas iniciativas entre o povo cubano e o povo brasileiro?
CZ - A relação do povo cubano e do brasileiro são relações permanentes, relações eternas que nunca foram interrompidas. Pode até ter havido interrupções nas relações oficiais, mas nunca entre os povos. E o que estiver em nossas mãos para contribuir para que esse programa siga desenvolvendo, faremos o esforço necessário.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Programa educacional cubano estimula desenvolvimento da infância

Escrito por Erica Soares
13 de julio de 2010, 12:56
Havana, 13 jul (Prensa Latina)

Cuba desenvolve hoje um programa dirigido a preparar as famílias para que estimulem o desenvolvimento integral das crianças desde seu nascimento até o ingresso à escola.

Com o nome "Educa a teu filho", este projeto garante a atenção educativa por via não institucional a crianças de zero a seis anos de idade que vivem em regiões montanhosas onde não existem círculos infantis (creches).

Baseia-se em um programa pedagógico com caráter interdisciplinar elaborado por psicólogos, pediatras, pedagogos, especialistas em crescimento e desenvolvimento, em esporte, recreação e cultura, entre outros.

O representante do Fundo das Nações Unidas para a Infância em Cuba, Juan José Ortiz, destacou que a maior das Antilhas é um grande exemplo de boas práticas no ensino inicial.

Destacou que na ilha caribenha não há uma só infante carente de atenção apesar da crise econômica e do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos há quase meio século.

As declarações de Ortiz foram formuladas na primeira jornada do nono Congresso Internacional de Educação Inicial e Pré-escolar que termina amanhã.

"Educa a teu filho", surgido em 1992, conta com o apoio de diferentes organizações de massas e de grupos coordenadores que trabalham voluntariamente a nível de Conselhos Populares em todo o país.

Cuba atende à população infantil por duas vias: institucional, em círculos infantis do segundo até o sexto ano de vida, e nos graus pré-escolares que existem nos círculos infantis e nas escolas primárias.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Dia do educador cubano


Cuba comemora o dia do educador, que recorda o momento em que Fidel, na Praça da Revolução, junto com os alfabetizadores, declara Cuba "território livre do analfabetismo" (1961): "Vencemos uma grande batalha, e deve ser chamado assim, Batalha. Porque a vitória contra o analfabetismo em nosso país foi conseguida mediante uma grande batalha, com todas as regras de uma grande batalha.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Pesquisa de economista americano, realizada em países da América Latina, mostra que as práticas de classe são o motivo do sucesso da educação em Cuba

MARTIN CARNOY "Em Cuba, a turma trabalha mais, as perguntas do educador levam todos a pensar e ele não para a toda hora para pedir atenção."
Em 1997, uma pesquisa conduzida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) testou os conhecimentos em Matemática e linguagem de 4 mil alunos de 3ª e 4ª séries de 13 países latino-americanos. Os cubanos têm desempenho muito melhor que os das outras nações. Em 2005, num novo exame, novamente Cuba ocupou o topo da lista. Qual o segredo da ilha para obter resultados tão bons? A pergunta motivou Martin Carnoy, que leciona Educação e Economia da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, a realizar um estudo comparativo entre Cuba, Chile e Brasil. Após filmar aulas de Matemática (disciplina em que o desempenho foi mais desigual nos três países) em 36 escolas e entrevistar funcionários da área de Educação de todos os níveis de governo, além de professores, diretores, estudantes e pais, o americano concluiu que boa parte das diferenças está dentro das próprias salas. "Em Cuba, a turma trabalha mais, as perguntas do educador levam todos a pensar e ele não para a toda hora para pedir atenção." Isso, no entanto, dentro de um ambiente ideologizado e repressivo, o que sugere a necessidade de adaptar as soluções para um contexto democrático. A convite da Fundação Lemann, Carnoy esteve no Brasil em agosto para lançar o livro A Vantagem Acadêmica de Cuba, em que relata as descobertas da pesquisa. Na ocasião, ele detalhou a NOVA ESCOLA o que viu nos três países.
De acordo com sua pesquisa, por que os alunos de Cuba obtêm resultados superiores aos dos outros países da América Latina?
MARTIN CARNOY Há diversos fatores em jogo, mas eu diria que o principal é o uso eficiente do tempo em sala. Filmamos aulas de Matemática da 3ª série em 36 escolas de Cuba, do Chile e do Brasil e descobrimos que, na ilha, elas são mais focadas na aprendizagem do que nos outros dois países. Como escrevo em meu livro, a qualidade de um sistema educacional depende da qualidade das experiências desenvolvidas em sala de aula.
Com qual atividade o professor brasileiro gasta mais tempo?
CARNOY Com o trabalho em grupo. Na média das escolas em que pesquisamos, 30% do tempo é dedicado a essa tarefa. No Chile, o índice foi ainda maior, 34%, enquanto em Cuba caiu para 11%. O grande problema é que, na maioria das vezes, os brasileiros estão apenas sentados juntos, ou seja, com as carteiras unidas, mas sem interagir para resolver problemas matemáticos. Cada um trabalha por si ou apenas conversa com os colegas. O verdadeiro trabalho em equipe, que inclui a discussão para resolver a questão proposta, ocorre muito pouco tanto no Brasil como no Chile.
O que toma mais tempo das aulas nas escolas de Cuba?
CARNOY Lá, 41% do tempo é reservado às tarefas individuais. A vantagem é que os alunos realmente trabalham em 38% do período resolvendo problemas e fazendo exercícios. Enquanto isso, o professor circula entre as carteiras, orientando e tirando dúvidas. Por outro lado, o período dedicado à cópia de instruções é baixo: apenas 2%.
No Brasil, o tempo usado com cópia é maior do que na ilha?
CARNOY Sim. É três vezes superior ao verificado em Cuba. Numa das salas brasileiras que observamos, a garotada chegou a ficar uma hora copiando enunciados de problemas no caderno, algo que poderia ser resolvido com uma fotocópia ou uma folha mimeografada. Para piorar, não foi explicado o porquê daquele trabalho. Não estou dizendo que o quadro-negro não deva ser utilizado: ele é importante para apresentar conceitos e discuti-los, mas acho que seu uso deve ser rápido. Passar a aula toda escrevendo é, sem dúvida, uma perda de tempo.
Que outras diferenças importantes a pesquisa revelou no que se refere ao uso de tempo?
CARNOY Descobrimos que no Chile e no Brasil despende-se o dobro dos minutos em transições de atividades ou interrupções, como pedidos de silêncio. Isso indica que a prática cubana é mais eficiente, mas também pode ter a ver com o tamanho médio das turmas. Em Cuba, as classes que analisamos tinham em média 17,9 crianças, enquanto nas brasileiras havia 27,9, e nas chilenas, 37,1.
O estudo enfoca ainda o tipo de pergunta feito à meninada. O que os dados demonstram?
CARNOY Dividimos as questões em três categorias: as repetitivas, as que têm respostas curtas e as mais complexas, que exigem a explicação do raciocínio usado - em Matemática, é essencial descrever o processo que se está aprendendo. Em Cuba, perguntas desse último tipo aparecem em 55% das aulas. Percebi que no Brasil o mesmo não ocorre. Aqui, predominam as perguntas repetitivas, geralmente respondidas em coro. Isso quando são feitas, pois em 25% das aulas brasileiras a que assistimos elas não existiram. Também há pouca discussão sobre os equívocos. Quando alguém comete um erro, o educador geralmente apaga e chama outro para o quadro. Seria muito mais produtivo perguntar: "Onde está o problema? Por que a solução está incorreta?" Do contrário, ninguém entenderá onde errou.
O material didático apresenta diferenças significativas nos três países?
CARNOY No Brasil, os livros didáticos são abrangentes, mas pouco profundos. Digo que têm 1 quilômetro de diâmetro e 1 centímetro de profundidade. Eles também possuem muitas informações teóricas, provavelmente para servir como guia de apoio ao docente, já que a formação dele é fraca. Na maioria das vezes, ele não consegue apresentar todo o conteúdo trazido pelo material. Em Cuba, há menos variedade de temas, mas cada assunto é explorado detalhadamente e com mais exercícios. O resultado é que no Brasil é bem menor a exigência em termos de habilidades cognitivas.
Como todos esses fatores interferem no desempenho dos alunos?
CARNOY Entre as três nações, o Brasil ficou em último no nível de proficiência matemática. Em uma escala que vai até 5, ele tirou 2,2, enquanto o Chile ficou com 3,2, e Cuba, com 3,8. Numa das salas brasileiras, a compreensão dos conceitos não atingiu nem o nível básico, pois as atividades se baseiam quase exclusivamente na memorização e na cópia mecânica. O país também teve a pior posição quanto à média de atenção dos estudantes e ao grau de disciplina. Pela linguagem corporal e pelas atitudes em sala, é visível quando os brasileiros ficam entediados. Aí, se desligam da tarefa e passam a brincar ou a participar de conversas paralelas. No outro extremo estão os cubanos, que têm um envolvimento maior. Muito disso se deve ao bom planejamento. Quando alguém termina uma tarefa, já se apresenta outro desafio. Então, não dá tempo de se aborrecer.
Por que os educadores cubanos conhecem os alunos melhor do que os brasileiros?
CARNOY Primeiro porque a rotatividade dos estudantes cubanos é bem menor do que nas escolas brasileiras. Eles tendem a ficar por vários anos na escola em que ingressam. Segundo porque em Cuba os mestres seguem com a mesma turma da 1ª à 6ª série. Além de terem maior familiaridade com ela, já conhecem os problemas e se esforçam para que não se repitam no ano seguinte.
De que maneira a equipe gestora colabora para a qualidade do ensino?
CARNOY O ponto principal é que, em Cuba, diretores e vice-diretores supervisionam de perto o trabalho docente entrando constantemente em sala para ver se o currículo está sendo cumprido e como é ensinado. Os educadores estão acostumados a ser apoiados didaticamente e ser avaliados pelos gestores. É um trabalho focado no aprendizado. Além disso, os diretores conhecem muito bem os estudantes e as medidas adotadas para garantir que cada um avance.
Além do que ocorre dentro da escola, que outros fatores podem influenciar a aprendizagem?

CARNOY O modelo que utilizamos inclui o chamado capital social gerado pelo Estado, que diz respeito à atuação do governo na organização do sistema educacional. Ao definir o currículo, a distribuição de alunos pelas escolas, o recrutamento e a formação docente em serviço, o Estado tem um impacto importante na atmosfera da sala. Isso se reflete no comportamento dos pequenos, nas poucas faltas dos professores e no compromisso deles e dos gestores com a melhoria da aprendizagem, além da expectativa dos pais em relação à escola. Somam-se a esse cenário a garantia de condições de saúde e de segurança e o combate ao trabalho infantil, que também são essenciais à aprendizagem. No entanto, em virtude da atuação da administração governamental centralizada e hierárquica, os métodos de ensino e o currículo são rigidamente impostos. Como não se trata de uma democracia, o ambiente estimulante para o estudo não ocorre com a participação das famílias em reuniões de conselhos escolares, por exemplo.

A formação dos professores em Cuba é de melhor qualidade?
CARNOY Sim, especialmente em Matemática. Primeiro porque os estudantes aprendem um bom conteúdo no Ensino Médio e isso tem um efeito importante na forma de atuar quando se tornaram professores. Segundo porque a formação inicial tem foco claro em como ensinar o currículo nacional. No Brasil, além de a Educação Básica ser mais fraca, a formação inicial ou é insuficiente, ou é excessivamente teórica. Os recém-formados sabem muito sobre teorias do ensino e pouco sobre como ensinar.

Como a ilha consegue atrair bons profissionais pagando salários de cerca de 35 reais?
CARNOY Os salários lá são fixados pelo Estado - que supre necessidades básicas, como moradia e alimentação - e, de fato, os educadores ganham mal. Mas, como a economia de mercado é muito pequena, as outras profissões também são mal remuneradas. Essa situação vem mudando nas províncias turísticas, onde as economias são dolarizadas e uma arrumadeira de hotel pode ganhar o triplo de um professor. Por enquanto, quem se sai bem no Ensino Médio ainda é atraído para o Magistério, considerado uma profissão de relativo prestígio. No Brasil, é preciso recuperar o salário do setor para que ele se equipare ao de outras ocupações de nível superior e atraia os melhores. O Chile deu um passo importante: nos últimos 13 anos, triplicou o salário dos docentes. Como resultado, a nota mínima para ingresso nas faculdades de Educação subiu até 10% entre 1998 e 2001.

Seu livro afirma ainda que a desigualdade também interfere no resultado educacional. Como isso ocorre?
CARNOY Em geral, as crianças frequentam escolas com colegas muito parecidos em termos socioeconômicos. No Brasil, 80% das famílias que estão entre os 20% mais pobres da pirâmide social mandam os filhos para escolas que atendem moradores de lares com rendas similares. De um lado, o resultado é uma concentração dos que têm origem semelhante em uma mesma instituição. Nas escolas de classe baixa, como a clientela tem uma procedência familiar muito parecida - em geral, com pais pouco escolarizados -, não há bons modelos em que se inspirar. Além disso, nossa pesquisa mostra que esse tipo de escola atrai os piores mestres, que possuem expectativas reduzidas sobre o que a garotada pode aprender.

Para finalizar, quais lições de Cuba o Brasil não deveria seguir?
CARNOY Penso que por aqui existe muito mais liberdade de crítica e de questionamento. Há mais caminhos para ser criativo no Brasil do que em Cuba. A possibilidade de um profissional de Educação dizer "Eu não concordo com isso" e não ser punido de alguma forma simplesmente por não se ajustar à ideologia dominante é fundamental.

Retirado de: http://convencao2009.blogspot.com/